Reportagem publicada no Globo.com em 27.03.13

Gallo inova na Seleção com mais de 15 ‘auxiliares’ e mira os Jogos de 2016

Técnico divide convocações na base com treinadores dos clubes, e diz que Marín revelou intenção de vê-lo no comando da equipe olímpica no Rio

Por Alexandre Lozetti Cotia, SP

Alexandre Gallo assumiu o comando das seleções brasileiras de base com dois auxiliares: Maurício Copertino e Caio Zanardi. Mas, na prática, serão mais de 15. Talvez 20. Um número que pode subir a cada mês, sem limites. Trata-se da parceria que o técnico quer implantar com os clubes do país. Gallo não tem a menor vaidade em admitir que suas convocações praticamente vão ser feitas pelos treinadores das principais equipes. Na verdade, baseada nas informações que, mensalmente, forem passadas num banco de dados criado pelo setor de tecnologia da CBF.

Gallo conhece o outro lado. Ficava indignado quando jovens das equipes que treinava eram chamados para defender a Seleção. Muitas vezes, em sua avaliação, nem estavam prontos, ou então eram mal aproveitados. É isso que o ele quer evitar. No projeto “erro zero” em convocações, será fundamental a relação de confiança entre ele e os técnicos dos times. Por isso, já visitou dez clubes: Corinthians, São Paulo, Santos, Flamengo, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro, Atlético-MG, Internacional, Grêmio, Coritiba e Atlético-PR. E vai ampliar o leque em breve.

– Na seleção principal é fácil saber como está o Neymar. A mídia te passa diariamente o que acontece na vida dele. Mas como se convoca jogadores para as seleções sub-15 e 17 sem ter um link direto com os treinadores, e saber o dia-a-dia desses atletas? Não sou eu que farei essa convocação e nem pode ser.

Após a campanha frustrante no Sul-Americano Sub-20, em que o Brasil foi eliminado logo na primeira fase do torneio, Gallo, que assumiu em seguida, promete uma reformulação na categoria. Entre as medidas, está aproximar o time taticamente do que é feito por Felipão e Parreira na seleção principal. A meta é formar jogadores que possam ser escalados na equipe pentacampeã. E o sucesso desse projeto pode significar a Gallo a chance de disputar a inédita medalha de ouro no Rio de Janeiro, em 2016.

Na reunião com o presidente da CBF, José Maria Marín, o técnico diz ter ouvido dele que sua intenção é vê-lo no comando da equipe em 2016. Nos Jogos de Londres, ano passado, Mano Menezes acumulou os trabalhos de preparação do time principal e a disputa olímpica. Derrotado pelo México na final, amargou a prata e a demissão meses depois.

Em entrevista ao GLOBOESPORTE.COM no CT do São Paulo em Cotia, onde prepara a seleção sub-17 para o Sul-Americano na Argentina, Gallo também falou sobre as brigas entre clubes por atletas adolescentes, e prometeu combater a ação de empresários junto aos atletas da Seleção. Confira:

Como surgiu o convite da CBF?
Estava no fim da pré-temporada no Náutico quando recebi a ligação do presidente José Maria Marín, e nos encontramos em Fortaleza, na inauguração do Castelão. Ele e o doutor Marco Polo Del Nero me mostraram o projeto, exclamei o que penso das seleções de base, e em 25 minutos nos entendemos. No dia seguinte me reuni com a diretoria do Náutico, o presidente Marín falou por telefone, fez o pedido e eles entenderam que era um sonho de todo treinador chegar à seleção brasileira. Entramos num acordo, agradeço muito ao Náutico.

Você disse que exclamou o que pensa sobre seleções de base. O que você pensa?
Em trazer o profissionalismo para a base, já que praticamente todos os jogadores são profissionais, têm contrato. Nada mais justo do que trazer para esses meninos uma consciência, postura, situação de profissional. Chocou muito tudo que aconteceu no Sul-Americano, o presidente quis isso e veio de encontro com o que eu pensava. As condições têm de ser exatamente iguais às da seleção principal. Queremos comprometimento, entrega, quero trazer sempre os melhores tecnicamente, desde que estejam comprometidos com o processo. Qualquer atleta terá de cumprir com as normas e regras, já passamos a eles o que a CBF espera e que eles são protagonistas. Estou aqui para dar um direcionamento. Quero trabalhar com bastante profissionalismo e alegria.

O que exatamente chocou no último Sul-Americano?
Isso a gente trata internamente, eu seria covarde em externar, até em respeito ao profissional que lá estava (o ex-técnico Emerson Ávila). Soubemos de atletas e profissionais da CBF, mas ficou para trás. Temos de virar a página e iniciar um novo ciclo, que passa pela questão do profissionalismo. Vai ser muito importante esse contato direto com os treinadores dos clubes onde estão os jogadores que mapeamos baseados nas últimas convocações.

Como funciona esse mapeamento?
Não sou eu que faço a convocação e nem pode ser. Os jogadores dessa idade alternam muito o estirão psicológico, físico e técnico. Em um ou dois meses pode mudar muito. Eu não entendo porque nunca ninguém falou comigo antes de convocar um jogador meu. Já visitei clubes de Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, São Paulo e Rio. Faltaram Palmeiras, que nos avisou que está trocando a categoria de base, e Vasco, por questão de tempo. Mas vou aos dois, a Salvador, Recife e Goiânia. Vamos sempre atrás do grande atleta, e criaremos na CBF uma pasta para cada clube, para que eles nos abasteçam de informações mensais. Vou saber de todo elenco, departamento médico, evolução dos atletas, e haverá um espaço aberto para que façam comentários. Quero abrir as portas da CBF para o que é importante, que são os clubes, trazê-los para perto, e minimizar os erros nas convocações. Fui super bem aceito. Entendo que a convocação tem de ser dos treinadores dos clubes, e se mandarem um atleta para a seleção, e ele não for o que passaram, vai bater e voltar. Vai prejudicar o clube e vai ser perder a confiança. Eu iria querer dar uma informação fidedigna e não quebrar esse lacre.

Então é como se você tivesse 15 auxiliares?
Exatamente. Estive com o Menta, no São Paulo, e ele falou que estou levando os mais prontos da equipe dele. É dessa relação que preciso. Não entendo como se faz uma convocação se não for dessa maneira. Vamos abrindo o leque e acertando. Às vezes o jogador fica 20 dias no departamento médico e volta a treinar. Aí a CBF liga aqui, pergunta, e dizem que ele está treinando. Só que chega à Seleção muito abaixo, sem ritmo. E tudo que aconteceu aqui nesses dias de treinamento foi relatado ao treinador de cada atleta. É o caminho inverso, antes não se sabia o que acontecia na Seleção.

O lado psicológico pode interferir muito no desempenho de um jovem?
Fui a um clube que tinha um jogador nascido em 1996 muito bom, um craque. Mas os pais se separaram no fim do ano passado, e o pai começou a levar uma namorada para assistir aos jogos dele. O clube foi muito claro comigo: é um craque, mas, psicologicamente, está lá embaixo, enfiou a cabeça na terra, e estamos tratando dele. Não é hora de ir. Tem histórico na Seleção, bons campeonatos, mas como eu iria saber desse problema?

Você vai conseguir conciliar as três seleções?
Agora estão coincidindo, então o Caio (Zanardi, auxiliar de Gallo) está com a sub-15. O calendário da sub-20 praticamente não existe esse ano, então vamos fazer uma reformulação grande. E na sub-17 tentar chegar ao Mundial.

Essa reformulação na sub-20 diz respeito a quê?
Jogadores, conceito, postura, comprometimento. O jogador tem de ter fome de estar aqui. Qualquer problema de comportamento vai ser rechaçado imediatamente.  Tudo que já iniciamos na sub-17.

Hoje há muitos jovens que já pensam na seleção principal e acabam ignorando a sub-20?
Preciso criar uma situação, e quero agradecer todo apoio do Felipão e do Parreira. Eles estão me ajudando e ensinando muito. São caras fundamentais. Quero aproximar a sub-20 do sistema que a seleção principal joga, ou dar aos atletas o entendimento do que fazem em cima. Se eu conseguir servi-los com um jogador, meu trabalho será bem feito. Na sub-15 e sub-17 é outro trabalho. Num país continental como o Brasil, não existe querer unificar uma maneira de jogar. Cada estado tem seu estilo de jogo.

Qual era sua experiência com a base?
Nenhuma. Lancei alguns garotos, sempre gostei de fazer isso, mas só treinei equipes profissionais. Estou aprendendo bastante, mas fazendo o caminho inverso, de tornar a base profissional.

Mas é muito diferente lidar com um grupo de jovens?
Na base trabalha-se muito a individualidade nos clubes, e em função da idade, sinto dificuldades no aspecto tático. São jogadores muito bons individualmente, a diferença é esse entendimento tático, de uma mudança de sistema. Mas isso tudo faz parte do aprendizado.

Como pretende lidar com a questão do assédio de empresários?
Tranquilamente. São pessoas importantes, respeito muito, mas a possibilidade de qualquer contato é zero. Assim como não há na seleção principal, não vamos permitir empresário no hotel. Não tem reunião, assédio, saguão. Estamos lá para ganhar.

E como a CBF vê essa frequente briga de clubes por jogadores jovens?
O posicionamento da CBF é de não convocar qualquer jogador sem contrato que seja pivô de problema entre clubes. No caso do Mosquito, havia um litígio entre Vasco e Atlético-PR, não o levei da primeira vez. Mas houve um acordo, os clubes me comunicaram, e o jogador foi convocado. A questão do Foguete foi totalmente diferente. O jogador saiu do Vasco em função de falta de pagamento e foi para o São Paulo. A CBF não pode ser conivente com erros como falta de pagamento de salário, fundo de garantia, o que quer que seja. Aí sim, convocamos o atleta.

E a questão da seleção olímpica? O Marín falou sobre isso com você?
Falou, sim. Por isso ele quer que eu trabalhe com a seleção sub-17, que irá também até a Olimpíada. Espero ter capacidade para seguir até lá e realizar esse sonho. Ele me passou que a ideia dele é que eu seja o treinador da seleção olímpica.

A saída do Bebeto do cargo de coordenador de base afetou seu cargo de alguma forma?
Nós conversamos muito. Eu joguei com ele no Botafogo, gosto muito do Bebeto, é um sujeito bacana, mas entendo o posicionamento dele. A saída foi em função de não conseguir estar em cima da situação com todas as atribuições que tem. Ele é um cara muito intenso, mas enquanto esteve lá, foi um grande amigo, facilitou as situações.